Sobre deuses e humanos
em Imbituva
Mario Fragoso
Jornalista
A sexta-feira amanheceu
cinzenta. Uma névoa úmida e
fria cobria Imbituva. O primeiro despertar fora antes das 4 horas.
Um dirigente sindical, viera apanhar uns panfletos de última
hora que seriam usados na boca de urna. No chão, num improvisado
colchão feito de cobertores sobrepostos, um sindicalista dormia
a sono solto. Roncava quase tão alto quanto o outro militante,
que tinha na cama ao lado o sono de anjo de um negro, legítimo
representante da porção africana componente da raça
brasileira.
O quarto 107 do Hotel Estrela, minutos depois foi tomado pelo burburinho
de combatentes que pulavam da cama, meia hora antes que o despertador
do telefone celular os despertasse. Estavam tomados pela ansiedade
da batalha que se avizinhava. Ansiedade que se justificava pela tarefa
que iriam cumprir durante a sexta-feira do dia 24 de abril de 2009.
Um dia que, tempos depois, dependendo do resultado da refrega eleitoral,
poderia servir de tema para registros históricos analíticos
e prospecções sociológicas sobre o sindicalismo
paranaense.
Do outro lado da trincheira, o grupo liderado por um ex-empresário
falido em duas cidades do interior do Paraná, que se apossara
do Sindicato dos Trabalhadores da Madeira de Imbituva havia mais de
15 anos. Na imaginária terra de ninguém da guerra declarada
seis anos antes pela Fetraconspar (1), humildes trabalhadores que geravam
aos patrões, por obra e graça do pelego Antonio Oto Beuter,
o fabuloso lucro extra anual na casa dos R$ 4 milhões, fruto
dos R$ 100 a menos do que recebiam os trabalhadores da categoria nas
demais 398 cidades paranaenses.
Duas horas antes que o dia amanhecesse, sindicalistas de entidades
de todas as regiões do Paraná, se agasalharam com pesadas
blusas, mais o calor da solidariedade sindical e trabalhista, e foram
para as portas das fábricas fazer a última panfletagem
antes que as urnas, com o aval da Justiça, circulassem pelos
locais de trabalho, contrariando o desejo do pelego de dificultar o
processo de coleta de votos. Ninguém tomou café da manhã,
mas isso não fazia a menor diferença.
A fome de justiça era maior do que o desejo biológico
de se alimentar. De repor as energias consumidas nas andanças
dos dias anteriores na distribuição do Jornal da Chapa
2 - Renovação, das noites mal dormidas e da preocupação
de que, a qualquer momento, alguém fosse agredido pelas ruas
de Imbituva. De que alguém fosse assassinado como ocorrera alguns
anos antes com um militante petista que tentara mobilizar trabalhadores
imbituvenses para confrontar o pacto diabólico entre patrões
e os pelegos do Sindcomp.
Quando o dia começou a clarear, apesar do frio e da água
que descia dos céus de forma quase invisível, os madrugadores
começaram a retornar ao CN “Centro Nervoso” da oposição
sindical. No estacionamento do Hotel, que virou quartel na semana que
antecedeu a eleição que iria virar a página da
corrupção e da injustiça que predominava no setor
da madeira de Imbituva, canários da terra, democraticamente,
circulavam pelo local ao lado de pardais, em busca de alimento. Sem
saber, as aves de diferentes espécies mostravam aos humanos
ao redor que a coexistência pacífica é, sim, possível.
A adrenalina começou a subir. A batalha da conquista do voto,
tantas vezes escamoteada pelos pelegos, ia, finalmente, começar.
Sexta-feira. Em inglês, Friday, dia da deusa Vênus, do
amor e da beleza. Seria do amor fraternal, pregado por todas as religiões
modernas, dos irmãos trabalhadores de todo o Estado do Paraná pelos
espoliados operários e operárias do setor madeireiro
de Imbituva? Seria da beleza da conquista, por tantos anos adiada,
da democracia e do fim da exploração do homem pelo homem
naquele pedaço dos Campos Gerais?
Na quarta-feira, quando o batalhão de sindicalistas saíra às
ruas para distribuir o último jornal de campanha da Chapa 2,
chovera o dia inteiro. Mas a água fria que descia dos céus
e devolvia a esperança aos agricultores, até então
temerosos com o destino da safra de milho que ansiava pela irrigação
vinda do alto, não conseguiu arrefecer o ânimo da tropa.
Pelo contrário, ativou a circulação sanguínea
e fez com que, apesar do sono acumulado pelas longas viagens e o cansaço
das andanças em meio à chuva, todos custaram a dormir
naquela madrugada.
Quarta-feira. Em inglês, Wednesday, dia dedicado a Mercúrio,
o deus mensageiro, do comércio e da eloquência. Portanto,
dia mais do que apropriado para a população imbituvense
e, principalmente, os trabalhadores da madeira da cidade, serem bombardeados,
por todos os lados, com a mensagem da mudança proposta pela
Chapa 2 – Renovação. Renovação de
dirigentes e, sobretudo, renovação na atitude do sindicalismo
local. Contra o velho, na idade e na prática, Oto; o jovem,
em anos vividos e em compromissos, Cornélio, um operário.
Na quinta-feira, véspera da batalha, como é normal acontecer
nas trincheiras de todas as guerras, desde o tempo em que os confrontos
eram decididos a pauladas e pedradas, o despertar se deu de forma natural.
Apenas um que outro precisou do ruído do despertador para acordar.
Ainda havia fábricas a visitar. Jornais a distribuir. Conversas
a serem entabuladas do lado de fora dos portões das empresas;
pois, tudo o que pelegos e patrões habituados ao lucro fácil
e inescrupuloso não queriam era o contato dos trabalhadores
com os sindicalistas.
Quinta-feira. Em inglês, Thursday, o dia de Thor, o deus do trovão
na mitologia nórdica. Trovão que, na tradição
dos Orixás, que chegou ao Brasil nos porões dos navios
negreiros, representa Xangô, a divindade da justiça com
seu machado de pedra, idêntico à ferramenta de Thor. Coincidências
arquetípicas que podem ser exploradas à luz da teoria
do Inconsciente Coletivo formulada por Carl Jung. A quinta-feira seria
o último dia em que o peleguismo e a exploração
andariam de mãos dadas pelas ruas e fábricas de Imbituva.
Rompidas as teias de aranha das tramóias urdidas pelo opressor
advogado Oto, que sonhava perpetuar-se na engorda de seu patrimônio
econômico e financeiro à custa do suor e da saúde
do trabalhador, as urnas foram para as fábricas famintas de
votos. Ávidas em cumprir a tarefa de depositárias dos
sonhos e das esperanças dos cerca de três mil operários
e operárias da madeira de Imbituva. Alea jact est. Sim, a sorte
fora lançada e, quando o a Terra completasse seu movimento de
rotação em torno do Sol, a noite seria o prenúncio
de um novo tempo na cidade.
Por volta das 16 horas, o comandante em chefe da tropa sindical, deu
uma rápida passada pelo CN. Trazia boas novas. Ainda melhores
do que as do dia anterior, quando conseguira a liminar na Justiça
que garantiu a itinerância das urnas. Naquele meio de tarde,
tranqüilo como devem ser os dias imbituvenses, anunciou que, faltando
uma hora para encerrar a coleta de votos, quase mil associados do Sindcomp
tinham exercido o sagrado e inalienável direito de decidirem
o futuro.
O quorum, a mais doce palavra que podia ser proferida naquele momento,
fora atingido e com sobras. Daí em diante, o frio na barriga
passou a ser provocado pelo resultado da votação. A apuração
dos votos seria iniciada imediatamente após o fechamento das
urnas. A Justiça fora clamada por muitas vozes, gritadas a partir
de todos os rincões do Paraná. O trabalho fora executado
a muitas mãos. Por trabalhadores da construção,
do mobiliário e de mais de uma dezena de profissionais que deixaram
seus lares e afazeres para lutar por Justiça. E Justiça
se fez.
A noite de sexta-feira, serviu como prévia do sábado
início de um novo , tempo para o trabalhador da madeira de Imbituva.
Em inglês, Saturday, o dia de Saturno, deus que na mitologia
grega era denominado Cronos, o senhor do tempo. Expulso do céu
por seu filho Júpiter, refugiou-se no Lácio, atual Itália,
onde exerceu a soberania e fez reinar a idade do ouro, cheia de paz
e abundância, tendo ensinado aos homens a agricultura. No Lácio,
criou uma família e uma conduta novas. Oxalá, o sábado
seguinte à eleição deflagre um tempo de paz, de
justiça e de prosperida em Imbituva.
Exército do Sindicalismo Autêntico
Comandante em Chefe – Sindicalistas comprometidos com os trabalhadores.