Acionistas decidiram fechar uma unidade francesa da fábrica alemã Perrin Industrie. Há dois anos, um acordo foi fechado entre a empresa e os sindicatos dos trabalhadores, o que implicou aumento de jornada de trabalho e da produção sem aumento dos salários, mas com o compromisso de preservar os empregos. Os trabalhadores cumpriram o acordo. Os acionistas queriam mais lucro e descobriram que ganharão (eles, os acionistas) muito mais se fecharem a fábrica.

Por Clemente Ganz Lúcio*

Assim começa Em Guerra, filme dirigido por Stéphane Brizé. São quase duas horas luta sindical, debates e negociação. A cada instante, a “nova empresa” se faz presente, com os interesses dos novos proprietários (os acionistas), ocultos e invisíveis, presentes através dos diretores e CEO mundial – e também pelos “cabeças de planilha”, assessores e diretores, com seus ternos e taiers, olhos vidrados e o discurso da inevitabilidade dos dados: não atingimos as metas, os acionistas esperavam melhores resultados – e aquela cara de enfado. Humanos, nada mais do que humanos.

Os trabalhadores lutam. Param. A greve se estende e o processo vai sendo contado por uma câmera que permanece atenta aos detalhes. São três sindicatos organizados na base da empresa (CGT, FO e Independentes), cada um com seus debates, escolhas e enfrentamentos internos. Atuam e as situações vão revelando que o pensamento estratégico exige trabalhar com múltiplas alternativas situacionais.

O filme Em Guerra é a expressão política do conflito social em decorrência dos interesses econômicos antagônicos. O poder do dinheiro e a ganância pelo acúmulo de riqueza financeira como valores primordiais fazem a cara desse novo mundo produtivo. Conhecê-lo é tarefa para todo dirigente sindical; compreendê-lo é uma exigência para quem quer ter efetividade sindical; enfrentá-lo é dever de quem busca uma sociedade justa e defende os interesses dos trabalhadores.

Em Guerra 
apresenta muitos dos elementos que hoje compõem os desafios do novo sindicalismo. Quem quer pensar sobre o futuro dos sindicatos e busca construir o sindicato do futuro tem a obrigação de assistir a esse filme; talvez, várias vezes, para aprofundar os detalhes.


O diálogo e a negociação estão presentes o tempo todo nas estratégicas sindicais, mas sua base está assentada na organização e na mobilização dos trabalhadores – e, tão fundamental quanto, na unidade inquebrantável de um lado, e na disponibilidade do outro lado.

Em Guerra luta pela paz de quem quer ter o emprego para prosperar na vida cotidiana pagando suas contas, comprando a comida e vivendo de maneira decente. Isso não é óbvio e está em desuso. Nesse novo mundo, competir para ter mais para ficar rico ou milionário é um valor que subordina todo o resto.

Há decisões radicais para que o diálogo volte a se estabelecer. Há decisões radicais que abrem novas possibilidades de futuro. Abra uma nova janela para o futuro do sindicalismo: assista Em Guerra!

Clemente Ganz Lúcio, sociólogo, é diretor-técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos)