No momento em que o país registrava 59 óbitos, seis vítimas tinham menos de 60 anos — cerca de 10% do total. Dos 391 casos graves, 188 (ou 48%) eram de jovens e adultos.

A campanha do governo federal chama de “raros” os casos fatais do novo coronavírus. Segundo o último levantamento por faixas etárias da população, disponibilizado pelo Ministério da Saúde, mortes de menores de 60 anos representam 10% do total no Brasil. Entretanto, quando se trata de casos graves, jovens e adultos representam quase a metade.

De acordo com essa análise oficial por faixas etárias, no momento em que o país registrava 59 óbitos, seis vítimas tinham menos de 60 anos — cerca de 10% do total. Dos 391 casos graves, 188 (ou 48%) eram de jovens e adultos. Na sexta-feira (27), o número de óbitos subiu para 92 (2,7% do total de 3.417 casos), mas a pasta do governo não divulgou a divisão por faixas etárias.

“Não é nada raro. Essa coisa de que jovem não vai ter problema [com o vírus] é uma ilusão, não representa a realidade dos nossos hospitais”, afirma a infectologista Naihma Fontana, que cuida de uma UTI (unidade de tratamento intensivo) em Sorocaba, no interior paulista.

Para ela, ao estimular isolamento só de idosos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) despreza a taxa de mortes e ignora as sequelas deixadas em quem sobrevive a casos graves de coronavírus.

“Nós temos pacientes em estado grave de todas as idades. Tem de 46, 48, 33 anos. Todos entubados, com ventilação mecânica. O vírus não escolhe faixa etária. Claro que morrem mais idosos por causa das complicações, mas os jovens morrem, sim. Ficam em estado grave, sim”, afirma Fontana.

A infectologista entende que o Estado e parte da população têm de parar de tratar o assunto como se fossem números. Diz ainda que não faz sentido o governo desprezar as taxas de mortalidade das vítimas abaixo de 60 anos.

“Falam que 2% é letalidade baixa, mas e se for seu pai, sua mãe, seu filho? Aí não representa 2%, representa 100%! As pessoas têm de ter consciência”, avalia a médica.

A médica sanitarista Sylvana Medeiros também diz não entender o objetivo da campanha. Para ela, focar apenas em idosos não faz sentido, quando se trata de controlar uma epidemia.

“As crianças adoecem menos, mas adoecem também. O que fazer com as crianças que têm problemas crônicos? Isolá-las? E os jovens? Se a gente não quer dispor a nossa população ao risco, tem de pensar em várias frentes, de forma ampla — não falar em isolar só idoso, porque jovem, teoricamente, morre pouco”, afirma Medeiros.

Casos graves podem ter sequelas permanentes

Fontana pontua que, mesmo para jovens que superaram casos graves da covid-19, a experiência é traumática para o corpo e pode trazer sequelas permanentes.

“As pessoas esquecem que, antes de morrer, há uma série de acontecimentos. Elas não fazem ideia do que é ser entubado com ventilação mecânica. Isso pode gerar uma série de complicações”, afirma a infectologista.

Segundo a médica, há riscos de o paciente, jovem ou não, ficar com sequelas irreversíveis, como uma fibrose pulmonar permanente. “O paciente vai ficar com uma disfunção respiratória para o resto da vida. E aí? É só para separar vivos e mortos? Como esses pacientes que sobreviveram estão agora?”, questiona.

“A declaração do presidente mostra o quanto ele desconhece totalmente o que acontece dentro da UTI e dos hospitais. Nós vemos chegar cada vez mais casos de covid-19, diariamente, de todas as idades. Se não estamos confirmando mais é porque não tem teste, mas os casos existem”, declara Fontana.

Desestímulo ao isolamento é um desserviço “perigoso”

Em pronunciamento na última terça (24), em meio a críticas ao isolamento domiciliar, o presidente questionou a razão de fechar escolas, afinal, crianças não estão no grupo de risco. Para Medeiros, com esse tipo de comentário, Jair Bolsonaro aparenta não entender conceitos básicos de como uma sociedade funciona.

“As escolas não funcionam só com alunos. Funcionam com professor, administrativo, merendeiras. Os estudantes são levados por pais, avós, motoristas. A escola cria um ritmo de mobilização de comunidade, traz gente no meio da rua, trânsito”, afirma a médica.

À frente de uma UTI em Sorocaba (SP), Fontana também vê com preocupação esse tipo de campanha, pois o país não tem leitos suficientes para atender à população, se o número de casos graves aumentar exponencialmente. Ela diz que o foco deveria ser mitigar danos, não aumentá-los.

“Fiz alguns cálculos. Sorocaba tem uma população de 670 mil habitantes, com aproximadamente 460 mil adultos, e 166 leitos fixos de UTI. Se seguíssemos todas as recomendações e fizéssemos tudo certo, precisaríamos de 192 ao longo da epidemia. Se não fizermos e chegarmos ao nível da Itália, precisaríamos de 400! Isso só Sorocaba, sem considerar as cidades-satélite. Vai faltar leito. Nós tínhamos que diluir os casos graves, se não vai virar um colapso”, declara a infectologista.

“A questão é uma só: tem de pensar como um todo, no coletivo. O maior desespero para um médico é não poder albergar um paciente com insuficiência respiratória, por falta de estrutura. E isso vai acontecer, seja jovem, velho, o que for. Vai ter gente morrendo no corredor. E o presidente ainda não se deu conta disso”, finaliza Fontana.

Fonte: UOL