A nova campanha "Chega de Engolir Sapos" foi lançada nesta terça (13) durante um encontro de Skaf com líderes da indústria, do comércio, da agricultura e dos serviços. Na fachada do pomposo prédio da entidade, na Avenida Paulista, em São Paulo, já se encontra o sapo inflável, de cinco metros de altura. Ao longo de toda a via, em frente a agências bancárias da região, pequenos sapos, balões e panfletos foram distribuídos aos transeuntes. 

“Se uma pessoa tivesse ido a um banco para depositar R$ 100,00 na caderneta de poupança há dez anos, teria hoje na conta R$ 198,03. Se essa mesma pessoa tivesse usado o mesmo valor de R$ 100,00, no cheque especial, na mesma data, teria hoje, no mesmo banco, uma dívida de R$ 4.394.136,97! Você acha isso justo?”, questiona o material publicitário da campanha.

A queda dos juros cobrados a empresas e consumidores é uma bandeira antiga das centrais sindicais. As entidades representativas dos trabalhadores vêm há tempos pressionando os sucessivos governos a reduzirem a Selic e atuarem para reduzir o spread bancário, que é a diferença entre o custo do dinheiro para o banco (o quanto ele paga ao tomar empréstimo) e o quanto ele cobra para o consumidor na operação de crédito.

O argumento repetido há anos pelas centrais é o de que, com os juros altos, o crédito fica mais caro, portanto, as empresas são desestimuladas a investir, preferindo aplicar no mercado financeiro, algo que não gera empregos, renda, nem movimenta a economia. Os juros abusivos também freiam o consumo das famílias, que poderia estimular a atividade. Além do mais, a Selic nas alturas tem impacto sobre a dívida pública, já que boa parte dos títulos públicos é indexada à taxa básica de juros. 

Enquanto os trabalhadores tecem críticas ao governo, ao Banco Central e ao sistema financeiro, o alvo da Fiesp desvia da gestão. “O Banco Central reduziu a Selic para o menor valor da história. Nos últimos 16 meses, a Selic caiu de 14,25% para 6,75% ao ano. Mesmo assim, os juros cobrados do consumidor e das empresas continuam sendo os maiores do mundo. Na prática, a redução dos juros não foi repassada ao consumidor nem às empresas. Os juros da vida real no Brasil continuam absurdos”, diz texto publicado no site da Fiesp.

A entidade não diz que a taxa de juros real (descontada a inflação) também continua das mais altas do mundo, nem questiona a demora do governo em reduzir a Selic, apesar da recessão. Tampouco cobra do Banco Central e do governo medidas que forcem uma queda no Spread. 

O ataque é aos bancos: “Não é razoável que, mesmo durante a pior crise da história brasileira, os bancos tenham continuado a cobrar taxas estratosféricas e, assim, alcançado lucros injustificáveis. Os três maiores bancos privados do Brasil tiveram lucro conjunto de 50 bilhões de reais em 2017, aumento de 12% em relação a 2016. Enquanto isso, a produção industrial caiu 20% no período da crise”. 

Capital produtivo e financeiro estiveram unidos no golpe que derrubou Dilma Rousseff. Com Temer no Planalto, os empresários conseguiram emplacar a reforma laboral, que diminuiu os custos do trabalho, às custas de direitos dos trabalhadores. Agora condenam a concentração do sistema bancário, que impede a concorrência no setor. 

Apesar de defensor antigo da queda dos juros, Wagner Gomes, secretário-geral da Central Única de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), vê com desconfiança a campanha da Fiesp. Afinal, a ofensiva do pato amarelo deixou um rastro de destruição para os trabalhadores.  “Somos favoráveis a baixar os juros, porque isso aquece a economia. Mas a Fiesp quer é levar vantagem em tudo. Eles dizem que estão preocupados com o Brasil, mas, se estivessem, não teriam defendido a reforma trabalhista, que rebaixa salários e atrapalha a economia do país”, afirma.

Segundo ele, a redução dos juros deve servir ao desenvolvimento do país, não ao lucro dos empresários. “Ter juros mais baratos para lucrar sem desenvolver o país não adianta. Não adianta se for para aplicar em equipamentos que reduzem mão de obra ou se for para ter investimentos que não geram emprego e desenvolvimento”, completou.

Para o economista Paulo Kliass, a campanha contra os juros altos acontece, não por acaso em um ano eleitoral, no qual o presidente da Fiesp figura como possível postulante. “Claramente tem uma intenção de marketing eleitoral”, diz.

Ele destaca que se trata de um tema popular, afinal, ninguém gosta de pagar juros altos. “O sistema financeiro é a expressão mais evidente da espoliação que a maioria da população está submetida pela dominância do sistema financeiro. Há mais de 12 milhões de desempregados, empresas falindo, e o único setor da economia que seguiu com lucros bilionários foram os bancos. Em 2017 os bancos somaram lucro de R$ 110 bilhões. É um escândalo. Mas por que só agora essa campanha?”, questiona.

O economista lembra que a tal “espoliação” não é de hoje e já foi até maior em outras épocas. “Então é uma campanha bem-vinda, pois o que se gasta com juros é algo muito expressivo mesmo, mas tem uma conotação oportunista e eleitoral. Não é que de repente baixou uma revolta contra o sistema financeiro”, ressalta.

Mesmo porque, ele analisa que, no atual processo de sofisticação do sistema capitalista, a divisão entre os setores da economia não é mais tão delimitada, e o sistema financeiro termina por penetrar em tudo o mais. “Cada vez mais o capital industrial está articulado com ele, não só na dependência do empréstimo do sistema financeiro, mas com uma interpenetração de interesses, com pessoas dirigentes de bancos fazendo parte da direção dos conselhos de administração de grandes conglomerados”, coloca.

Como exemplo, Kliass cita o caso do atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que tem toda uma trajetória no sistema financeiro, mas, depois de deixar a presidência do Banco Central, comandou o conselho de administração JBS. 

Para o economista, a campanha da Fiesp, além do mais, não deixa claro como deseja reduzir os juros. “O que eles propõem concretamente? Querem que o presidente diga que o BC tem que estabelecer um limite máximo para spread? Defendem que o governo use os bancos públicos para forçar uma spread menor?”, provoca. 

“Os bancos continuam não fazendo sua função precípua, que é ganhar dinheiro emprestando dinheiro. Continuam ganhando dinheiro com a rolagem da dívida pública e com a escandalosa cobrança de taxa de serviços. E isso, por exemplo, não é conversado na campanha do sapo”, critica. 

               

Fonte: Vermelho, 14 de março de 2018