UOL, 01 de julho de 2009
Real completa 15 anos; conheça seis visões
sobre o plano
Sílvio Crespo
Em São Paulo
As primeiras cédulas do real começaram a circular há 15
anos, no dia 1º de julho de 1994. Desde então, o país
passou por um processo de maxidesvalorização da moeda em
1999 e agora enfrenta a maior crise financeira do mundo desde a Grande
Depressão dos anos 1930.
No período, os juros foram o melhor investimento. O CDI, que
tem variação muito próxima à taxa básica
de juros (Selic), subiu mais de 2.000% desde julho de 1994.
UOL ouviu o ponto de vista de seis influentes
personalidades da área
econômica a respeito do Plano Real, incluindo suas consequências
já em curso e as perspectivas para os próximos anos.

Antônio Delfim Netto, professor emérito da Faculdade de
Economia, Administração e Contabilidade da USP, ex-ministro
da Fazenda, foi deputado federal por cinco mandatos (sendo um como constituinte)
Delfim Netto
UOL - Qual a principal consequência positiva do Plano Real até hoje?
Delfim - O principal resultado do plano
Real foi recuperar a credibilidade da moeda brasileira depois de uma
década de erosão contínua
e profunda, num processo acelerado de inflação que estava
conduzindo a economia brasileira à tragédia de uma hiperinflação.
Manobrando com maestria um engenhoso plano
de transição
da antiga moeda para o Real, a equipe econômica do governo Itamar
Franco conseguiu convencer a sociedade de que a inflação
podia ser controlada e de que era possível voltar a viver com
estabilidade monetária.
No governo seguinte, o plano Real se consolidou
e a economia atravessou um longo período de relativa estabilidade. A inflação
só voltou a ameaçar no final do segundo mandato de Fernando
Henrique Cardoso devido à excitação pré-eleitoral,
mas voltou a ser combatida com eficiência nos primeiros meses do
governo Lula, de tal sorte que o país se acostumou na realidade
a viver com níveis baixos de inflação.
UOL - Qual a maior falha no Plano Real?
Delfim - Foi a insistência no uso da política cambial como
a âncora que segurou a inflação, especialmente no
primeiro mandato de FHC.
Ela exigiu a utilização de uma política de manutenção
de taxas de juro internas muito superiores às taxas do mercado
mundial, o que atraiu investimentos externos majoritariamente voltados
para a especulação financeira de curto prazo.
A conseqüência dessa política foi uma persistente
sobrevalorização do Real que sacrificou duramente nossas
exportações, especialmente as industriais.
O resultado ao final do governo FHC todos
conhecem: um déficit
nas contas externas de US$ 180 bilhões que nos obrigou a fazer
vultosos empréstimos no Fundo Monetário Internacional,
só resgatados no final do primeiro mandato do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
UOL - Qual o futuro do real?
Delfim - Não vejo risco de reversão da política
de estabilidade porque a própria sociedade tem demonstrado permanentemente
aos governos que não vai se conformar com o retorno da inflação.
O ponto importante é que temos hoje políticas que combinam
essa estabilidade com a indução ao crescimento. A boa condução
dessas políticas foi testada e se saiu bem até agora durante
esta infeliz e desnecessária crise financeira que importamos.
Minha confiança é maior ainda por duas coisas que talvez
muitos brasileiros não se dêem conta e que são fundamentais.
Pela primeira vez, o Brasil tem sob "seu controle", em suas
mãos, os dois grandes problemas que sempre interromperam o desenvolvimento
em sua história: a escassez de energia e as crises de financiamento
externo.
Isso se deve à confirmação das quantidades de energia
(óleo e gás) existentes e ao alcance de nossa capacidade
de extração nas jazidas do pré-sal, técnica
e financeiramente. Além de garantir a oferta da energia, seu valor
potencial é suficiente para afastar as ameaças de crises
em nossas transações correntes com o exterior.
É isso que me permite afirmar que temos pelos menos 25 anos de
crescimento pela frente, que poderá ser robusto, comparável
ao dos países que mais crescem hoje em dia. E sustentável
pelas próximas gerações de brasileiros, se usarmos
a nossa inteligência para evitar grandes erros. Os mais jovens
provavelmente não lembram, mas o Brasil cresceu durante um bom
período no século passado a um ritmo de deixar chinês
de olho redondo, de espanto...

Armínio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos,
ex-presidente do Banco Central (1999-2003)
Armínio Fraga
UOL - Qual a principal consequência positiva do Plano Real até hoje?
Fraga - Fazer a sociedade, especialmente
os mais pobres, entender como é bom
ter inflação baixa.
UOL - Qual a maior falha no Plano Real?
Fraga - Nada que tenha a importância
da resposta anterior.
UOL - Qual o futuro do real?
Fraga - Penso que o real mais estável virou uma conquista da
sociedade e que, na sua versão atual, tem chance de sobreviver.
Refiro-me ao conjunto de metas para a inflação, câmbio
flutuante, estabilidade financeira e responsabilidade fiscal. Se o crescimento
do gasto público for contido, as chances aumentam muito.

Gustavo Franco, sócio-fundador da Rio Bravo, ex-presidente do
Banco Central (1997-1999)
Gustavo Franco
UOL - Qual a principal consequência positiva do Plano Real até hoje?
Franco - Hoje o Brasil tem uma moeda nacional
da qual pode se orgulhar, e isso se desdobra em um sem numero de conseqüências favoráveis.
Antes de 1994, nos não tínhamos moeda; tivemos oito padrões
nos últimos 60 anos.
Não é possível falar de distribuição
de renda e riqueza, nem de crescimento, em um país com taxa de
inflação de 40% ao mês, como tínhamos antes
do real. Isso é o que faz a diferença entre Brasil e Argentina.
UOL - Qual a maior falha no Plano Real?
Franco - Refletindo em retrospecto, acho
muito difícil que o
Plano real pudesse ter sido feito de modo muito diferente.
UOL - Qual o futuro do real?
Franco - A gente nunca vai poder dizer
que a tarefa está terminada.
Sempre a inflação pode ser uma ameaça, mas em grau
muito diferente do que era antes. Hoje, e provavelmente e nos próximos
15 anos, o debate não vai ser tanto sobre a inflação,
vai ser mais sobre o crescimento. O real não tinha o objetivo
de resolver o problema do crescimento, mas ele posicionou o Brasil para
ter futuro, ter possibilidade aspirar crescimento econômico e vida
melhor para todos os cidadãos do país.

Glauco Arbix, professor
do Departamento de Sociologia da USP, ex-presidente do Ipea (Instituto
de Pesquisa Econômica
Aplicada)
Glauco Arbix
UOL - Qual a principal consequência positiva do Plano Real até hoje?
Arbix - Ter introduzido o Brasil num período de modernidade,
em que nós nos afastamos do período de descontrole do país
sobre sua própria moeda.
A previsibilidade que uma economia estabilizada
permite é muito
grande e dá possibilidade de ampliação de investimentos.
Já a imprevisibilidade é praticamente incompatível
com o investimento. A estabilização favoreceu essa situação,
e as empresas brasileiras estão conseguindo se internacionalizar.
Além disso, a rede de proteção social, que é muito
sofisticada no Brasil, funciona de determinada maneira com inflação
e de outra maneira, sem inflação. Um dos grandes fatores
do êxito de um programa como o Bolsa-família na redução
da desigualdade é o regime de baixa inflação. Se
a inflação comesse 70% dos benefícios do BF, seria
muito diferente.
UOL - Qual a maior falha no Plano Real?
Arbix - O foco na inflação foi exacerbado. Não
que a gente deveria ter mais inflação, mas a política
macroeconômica não deveria ser apenas voltada para a inflação.
Deveria ter sintonia com as políticas de emprego e com o desenvolvimento.
Ao longo dos anos 90, não conseguimos fazer isso. Agora, ao longo
dos anos 2000, estamos obtendo um equilíbrio muito mais apropriado.
UOL - Qual o futuro do real?
Hoje não tem mais nenhum partido político de peso que
defenda que o controle da inflação não é importante.
Isso é um ganho político gigantesco. É um elemento
que equipara o Brasil a uma série de outros países avançados,
ainda que tenhamos que encontrar um equilíbrio entre controle
inflacionário e desenvolvimento.

Maílson da Nóbrega, Sócio da Tendências Consultoria
Integrada, ex-ministro da Fazenda (1988-1990)
Maílson da Nóbrega
UOL - Qual a principal consequência positiva do Plano Real até hoje?
Nóbrega - A principal consequência é a vitória,
a meu ver irreversível, contra a crônica inflação
brasileira. A estabilidade da moeda não é, em si mesma,
garantia de crescimento, mas sem ela não há futuro. Ao
contrário do que se pensou durante muito tempo no Brasil, a inflação
não tem papel relevante no processo de desenvolvimento. É um
mal, que gera volatilidade indesejável no PIB, na renda e no emprego,
desestimulando o investimento. Provoca ineficiências na economia
e concentra a renda. A estabilidade é, pois, condição
essencial para o desenvolvimento.
UOL - Qual a maior falha no Plano Real?
Nóbrega - É difícil apontar falhas no plano. Talvez
seus autores devessem ter tido maior preocupação com a
situação fiscal. Depois do plano, o setor público
começou a apresentar déficits primários que contribuíram
para aumentar a relação entre dívida pública
e Produto Interno Bruto.
A periclitante situação fiscal prevalecente em 1998 contribuiu
para tornar mais agudos os efeitos, sobre o Brasil, da crise da Rússia.
Os mercados tenderam a comparar a situação brasileira com
a russa, cuja crise tivera suas origens no péssimo estado das
suas finanças.
Felizmente, a partir do final de 1998,
medidas foram adotadas para reverter a tendência explosiva daquela relação. Embora esse
esforço tenha resultado essencialmente do aumento de receitas,
o fato é que de lá para cá foram afastados os temores
de calote na dívida pública. No governo Lula, a continuidade
da política econômica e a elevação do superávit
primário contribuíram para reforçar esse sentimento.
UOL - Qual o futuro do real?
Nóbrega - Estou convencido de que a estabilidade da moeda veio
para ficar. Somente um grande desastre nos colocaria de volta no ambiente
de instabilidade vigente nos anos 1980 e 1990, e começo da primeira
década deste século.
Há um conjunto de conquistas que criam incentivos à formulação
e execução de políticas econômicas responsáveis,
a saber: a intolerância da sociedade à inflação,
a imprensa livre e independente, a autonomia operacional do Banco Central
e os fortes riscos políticos de guinadas populistas na gestão
das políticas fiscal e monetária. O pano de fundo desse
processo inédito é a democracia, que parece consolidada
em nosso país.

Julio Gomes de Almeida, professor de Economia na Unicamp e ex-secretário
de política Econômica do Ministério da Fazenda (2006-2007)
Julio
Gomes de Almeida
UOL - Qual a principal consequência positiva do Plano Real até hoje?
Almeida - O Plano Real ajudou a tirar a
tradição inflacionária
que havia no Brasil e a preservar o rendimento das pessoas; as populações
de mais baixa renda são especialmente beneficiadas. Hoje há maior
previsibilidade dos investimentos.
UOL - Qual a maior falha no Plano Real?
Almeida - O que se pode discutir são os métodos que, ao
longo do tempo, foram utilizados para obter o resultado de baixa inflação.
Acho que foram cometidos erros e acertos nesse percurso. No caso de erro,
a persistência de juros muito altos é um fato que ainda
está sendo resolvido.
Muitas vezes utilizou-se exagerado nível de juros, o que aumentou
muito a despesa do governo, e isso também gera processo inflacionário
porque exige que o governo aumente a carga tributária, refletindo
em custos maiores na produção.
UOL - Qual o futuro do real?
Almeida - As conquistas do Plano Real estão plenamente consolidadas.
Porém, ainda há alguns resquícios de uma economia
com memória inflacionária. Há uma indexação
que ainda prevalece em muitos contratos de serviços públicos,
que algum dia nós vamos ter que resolver, como telefonia, pedágio,
energia elétrica e saneamento. Isso não acontece em muitos
outros países e nós ainda não conseguimos afastar.