SITE CUT, 09 de maio de 2007
Ponto de Vista
A importância de um piso estadual
para Santa Catarina
Ivo Castanheira é dirigente da CUT-SC
e Coordenador Sindical do DIEESE
em SC
Desde o ano passado as centrais sindicais e federações de trabalhadores
de Santa Catarina, assessoradas pelo DIEESE, vêm lutando por um piso estadual
de salários, tendo inclusive entregue em 15 de janeiro último uma
proposta de projeto de lei sobre o assunto ao governo do estado. O objetivo do
movimento sindical catarinense com o piso estadual é muito claro: o piso
deverá ser um importante mecanismo de distribuição de renda,
melhoria de vida dos trabalhadores e geração de um mercado interno
mais robusto no estado.
O emprego de carteira assinada em Santa
Catarina, a partir de 2000 assume uma dinâmica diferente da verificada nos anos de 1990, crescendo
até 2006, 51,67%, o que representa uma média anual de geração
de empregos formais de 74.700 novos postos de trabalho (7,3% ao ano,
em média). Este percentual está acima do crescimento vegetativo
da população economicamente ativa, e muito acima do crescimento
da população como um todo que expandiu 1,85%, em média
ao ano, no período 2000 a 2006. Entretanto, apesar da importância
que tem o aumento da quantidade de empregos, a qualidade do emprego em
Santa Catarina, ainda é muito baixa. Em todos os setores, a remuneração
média dos demitidos é mais elevada do que a remuneração
dos admitidos, o que demonstra que as empresas continuam utilizando a
rotatividade do emprego, que é altíssima, para reduzir
custos salariais. Esta tendência varia de setor para setor, e na
indústria - o setor que apresenta o maior achatamento salarial
- a média salarial dos que entram corresponde a apenas 88% da
média dos que saem do emprego.
Em face de um mercado de trabalho
que gera empregos, mas ainda de baixa qualidade, o debate sobre o piso
estadual
de salários assume importância
capital. Segundo estudo desenvolvido pelo Escritório Regional
do DIEESE em Santa Catarina, um piso estadual de salários de R$
480,00, impactaria potencialmente a renda de 20% de toda a população
ocupada a partir dos 10 anos de idade, e a mais de 30% de todos os trabalhadores
de carteira assinada no estado. Desta conta estão excluídos
os trabalhadores sem carteira, e os trabalhadores por contra própria,
cujos salários em parte se referenciam pelo mínimo oficial.
Estão fora da estimativa, também, os pisos salariais das
categorias que certamente seriam pressionados por um piso estadual, como
hoje ocorre, de forma destacada, em relação ao salário
mínimo nacional. Segundo dados do Sistema de Acompanhamento de
Salários (SAS), do DIEESE, as médias salariais dos pisos
negociados em Santa Catarina em 2006 estão entre 1 e 1,5 salário
mínimo. Em muitas categorias a média salarial está muito
próxima do piso, portanto, o salário mínimo exerce
sempre muita influência sobre o valor dos pisos.
O IBGE estima que,
em 2006, a renda per capita do estado tenha alcançado
R$ 14.312,00 (sem o recálculo do PIB), a quinta do país.
Um salário mínimo de R$ 480,00, mesmo com encargos, ficaria
bem abaixo da renda per capita estadual. Entre 1995 e 2004 a economia
catarinense cresceu 518% e o PIB per capita 351%. O crescimento médio
do PIB catarinense no período superou 4%, acima do crescimento
do PIB no Brasil. O crescimento nominal do PIB per capita no período
foi muito beneficiado pelo baixo crescimento da população,
em comparação com o PIB, inferior a 2% anual. Outra indicação
de que um piso de R$ 480,00 é viável para Santa Catarina é que
este valor equivale a 59% do salário médio praticado atualmente
no estado que, segundo a PNAD, está em R$ 810,00.
A partir do debate
ocorrido nos estados onde já foi implantado
o piso salarial (Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e outros)
percebe-se que as principais críticas contra o estabelecimento
do mesmo são basicamente:
a)
redução do emprego, em função das demissões
decorrentes do aumento de custo;
b)
aumento da informalidade, que seria uma saída adotada pelos
empregadores para compensar o aumento de custo da folha, visto que a
maior parte dos salários seria influenciada pelo piso estadual.
Nenhuma
das tendências foi confirmada nos estados onde já vigora
o piso estadual. Estudo feito pelo Escritório Regional do DIEESE
no Rio Grande do Sul, mostra que naquele estado o nível de ocupação
evoluiu desde 2001, quando o piso foi fixado, reduzindo a taxa de desemprego,
obviamente em decorrência do conjunto de fatores que influenciam
o comportamento do mercado de trabalho. O mesmo documento revela que
no período cresceu os ocupados com carteira assinada - aumentando
a formalidade, portanto - e o rendimento médio destes, cresceu.
A mesma tendência é verificada no Paraná, cujo mercado
de trabalho vem gerando um número próximo a 100.000 novos
postos de carteira assinada a cada ano.
O alcance de um piso estadual
de salários é muito significativo.
Interessa aos trabalhadores que têm sua renda aumentada, aos empresários
que terão uma ampliação do mercado interno, e ao
governo que terá suas arrecadação de impostos ampliada,
sem mexer nas alíquotas. Um piso maior, como hoje já ocorre
com o salário mínimo, além de beneficiar os trabalhadores
de carteira assinada, tende a pressionar também os salários
dos trabalhadores que estão no setor informal da economia. Além
disso, a tendência é o acréscimo de renda obtido
pelos trabalhadores, especialmente daqueles situados na base da pirâmide
salarial, ser destinado ao consumo dos chamados bens-salário,
dinamizando a economia do estado como um todo.