Grupo em que mais cresceu a insatisfação com o governo foi o das classes média e alta – justamente aquele para o qual o discurso anticorrupção que marcou a retórica de campanha de Bolsonaro é mais caro

Montagem por Cezar Xavier

Quando foi eleito, Jair Bolsonaro chegava ao poder acompanhado de uma verdadeira onda que elegeu 52 deputados de seu então partido, o PSL, que formaram a segunda maior bancada da Câmara. Ele venceu no segundo turno com 55% dos votos válidos – uma base que, de lá para cá, parece estar reduzindo e mudando sua composição.

A rejeição ao governo vem numa crescente desde o ano passado. Em junho, segundo a última pesquisa Datafolha, 44% dos brasileiros avaliavam a gestão Bolsonaro como ruim ou péssima, pior desempenho para um presidente em primeiro mandato desde Fernando Collor, que tinha 41% de rejeição em um ano e cinco meses de gestão.

Para a cientista política e pesquisadora do Cebrap Camila Rocha, parte do aumento da rejeição se deve à “falta de decoro do presidente” e a uma percepção de que Bolsonaro “não estaria preocupado de fato com os interesses das classes trabalhadoras”. Segundo ela, a pandemia foi um momento de inflexão importante. A postura do presidente frente à crise do coronavírus “foi percebida por muitos de seus eleitores – principalmente pelas mulheres – como uma demonstração de falta de humanidade frente aos infectados e mortos pelo vírus”.

Na abertura por faixa de renda, o Datafolha mostra que o grupo em que mais cresceu a insatisfação com o governo foi o das classes média e alta – justamente aquele para o qual o discurso anticorrupção que marcou a retórica de campanha de Bolsonaro é mais caro. Parte dessa base “lavajatista” desembarcou do governo após episódios como a saída do ex-ministro Sergio Moro e a acusação de tentativa de interferência do presidente na Polícia Federal.

Também engrossam o caldo da rejeição das classes médias o avanço de denúncias relacionadas ao chamado “inquérito das fake news” e as investigações que apuram eventual envolvimento do senador Flávio Bolsonaro em esquema de rachadinha. Nesse último caso, para muitos de seus eleitores, Bolsonaro procurou obstruir as investigações para favorecer sua família.

Os 30%

Esse movimento, entretanto, não teve um impacto no “número cheio” da aprovação de Bolsonaro. Assim como em meados do ano passado, cerca de 30% dos brasileiros dizem avaliar o governo como ótimo e bom. Isso acontece porque parte do vácuo deixado pelas classes de renda mais alta foi ocupado pelos brasileiros mais pobres.

Em dezembro, 22% dos que tinham renda de até dois salários mínimos avaliavam o governo como ótimo ou bom, proporção que subiu para 29% em junho. Com o salto, a participação desse grupo entre aqueles que avaliam o governo como ótimo ou bom hoje é pouco mais de 50%. O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, ressalta que, tanto na pesquisa de maio quanto na de junho, dentro dos 30%, cerca de um terço não havia votado em Bolsonaro e a maioria recebia o auxílio emergencial de R$ 600.

Para Camila Rocha, o benefício pode ajudar a explicar o aumento da adesão das camadas mais populares – o que, por ora, é apenas uma hipótese. Aliás, o próprio Datafolha mostrou que, entre os que recebem o auxílio emergencial, 49% reprovam a atuação do governo na pandemia. Camila diz que é cedo para afirmar se existe uma reconfiguração do bolsonarismo. É preciso compreender melhor o fenômeno e ver se essa mudança de composição se mantém por mais tempo.

A cientista política Mariana Borges Martins da Silva, pós-doutora na Nuffield College, na Universidade de Oxford, que há anos pesquisa o comportamento eleitoral dos brasileiros de baixa renda, concorda que ainda não é possível fazer uma avaliação categórica. Ela ressalta que a decisão de voto desse grupo é um processo mais complexo do que muita gente pensa. No fim, um benefício não vai ser o único fator levado em conta diante da urna.

Ela dá o exemplo do próprio Bolsa Família, que, segunda ela, era um ponto “residual” na avaliação do PT feita pelos eleitores de baixa renda que consideravam positiva a gestão do partido. Eles levavam em conta uma série de outros fatores que também tinham impacto direto em suas vidas: acesso a água, eletricidade, consumo, crédito, ensino superior. “É muito simplificador colocar só na conta do Bolsa Família.”

Existia uma visão entre eles, segundo a pesquisadora, de que Lula olhava para os mais pobres. E essa é uma imagem que, ao que tudo indica, Bolsonaro vem tentando construir. Seu discurso durante a pandemia repete que as necessárias medidas de isolamento, das quais ele discorda, estariam penalizando os mais pobres.

A antropóloga Isabela Kalil, que pesquisa a base social do bolsonarismo com uma abordagem etnográfica – em contato direto com grupos de eleitores –, acrescenta que, além do auxílio emergencial, as mudanças no Bolsa Família, rebatizado de Renda Brasil, também seriam um aceno a esse público. Mas o fato de responder em uma pesquisa de opinião que aprova a gestão do presidente não significa necessariamente fidelidade a ele ou ao seu projeto político.

Os eleitores mais pobres que agora dizem aprovar a gestão Bolsonaro, segunda ela, fazem parte de um grupo cujo apoio ao presidente é mais volátil. É diferente dos bolsonaristas fiéis, que, conforme escreveu recentemente o sociólogo Reginaldo Prandi, representam cerca de 15% dos brasileiros adultos. Ele fez a estimativa com base na última pesquisa Datafolha, isolando o grupo dos que votaram no presidente, que dizem acreditar em tudo o que Bolsonaro fala e que avaliam seu governo como ótimo ou bom.

A pesquisa de Isabela também aponta um percentual parecido com esse. O restante, algo entre 15% e 20%, são eleitores que ela chama de mais voláteis, que não necessariamente dariam seu voto a Bolsonaro, apesar de avaliarem bem seu governo no momento.

Com informações da BBC